sábado, 22 de junho de 2013

Pronunciamento de Dilma à nação frustra expectativas


A primavera brasileira chegou com toda a força. As manifestações que varrem o país a partir do rastilho de pólvora aceso pelo aumento, em R$ 0,20, do valor da passagem de ônibus em São Paulo, deixam atônitos os políticos tradicionais, cientistas políticos e o governo federal. Após dias de silêncio ensurdecedor, a presidente falou a nação. Em quase dez minutos, Dilma foi oportunista, usou da esperteza habitual dos políticos e apresentou, como novas, iniciativas já em curso, uma delas ineficaz e controversa.

Premida pelas manifestações de rua, realizadas em 111 cidades do país, e pelo aumento da violência em boa parte delas, a presidente, em seu pronunciamento, não poderia deixar de apoiar o movimento. Seria uma total incoerência com seu passado de lutadora pelas liberdades democráticas. Evidentemente, como todos nós, condenou, com veemência, a violência e as depredações realizadas por uma minoria dos participantes. Na busca de tranquilizar a nação, deu o recado para os meliantes: o aparato de repressão do Estado vai agir com rigor e dentro da lei. Até aqui só consenso.

Entretanto, Dilma teve que se dirigir para o mais de 1 milhão de pessoas que foi às ruas no dia 20/06, para todos que saíram de suas casas nas manifestações anteriores e para os milhões que não foram, mas queriam estar lá. Requentou três propostas de ação em curso: o PAC da Mobilidade Urbana, 100% dos royalties do pré-sal para a educação e trazer médicos estrangeiros para resolver o caos da saúde.

O PAC da mobilidade urbana foi lançado há mais de dois anos, em fevereiro de 2011, com gasto previsto de R$ 18 bilhões (o gasto com estádios para a Copa já está em R$ 28 bilhões...). Em Belém é o responsável pelo transtorno no trânsito, o desaparecimento de R$ 100 milhões e um dos motivos das manifestações.

Após a frustrada tentativa de destinar a totalidade dos recursos do pré-sal para a educação com a MP 592, em dezembro de 2012, Dilma enviou ao Congresso o PL 5.500/2013, em 02 de maio de 2013, com o mesmo objetivo. Como eu disse, iniciativas já em curso. Duas iniciativas positivas. A primeira, com pouco dinheiro. A segunda, de longo prazo.

Para dar resposta aos reclamos das manifestações sobre a falência do sistema de saúde, a presidente sacou da cartola a velha proposta mágica de trazer milhares de médicos do exterior, sem revalidar seus diplomas. O primeiro registro desta intenção da presidente data de 09.04.2012, em editorial do Estadão, referindo-se a manifestação de Dilma em Nova Délhi, por ocasião da reunião de cúpula dos BRICs. A fantasiosa proposta tem tudo para ser um “tiro no pé”. Há generalizada resistência da sociedade a que médicos que não falam a nossa língua e que não comprovem sua habilitação atendam a população brasileira. Pior. A presidente subestimou a inteligência das massas ao atribuir os graves problemas de saúde à suposta falta de médicos. De quebra, deu um tapa na cara dos 373.923 médicos brasileiros acusados de serem os responsáveis pelo caos.

 Dilma não respondeu – ou não tinha como responder – às principais inquietações dos manifestantes. O sistema político brasileiro faliu. As instituições estão em xeque. Todas elas: partidos, congresso, judiciário, parlamentos, executivos, movimentos sociais e entidades da sociedade civil. A insatisfação é tão grande que até a democracia está em risco. Como lembrou Gabeira em artigo recente, a pequena Islândia não pode ser modelo (pelo tamanho e pela cultura), mas lá as manifestações obrigaram a elaboração de uma nova Constituição que garante mais democracia direta e mais transparência nos gastos públicos. Em nosso país, nos marcos do estado de direito democrático, algo de muito profundo também terá que ser feito.

Os próximos dias dirão se o pronunciamento da presidente teve o condão de satisfazer as massas. Ou se as vozes, que ela disse estar ouvindo, vão continuar gritando de norte a sul. E qual o rumo da primavera brasileira. Seguramente, as próximas semanas e meses nos reservam grandes emoções.

23 comentários:

  1. EU como profissional médico não consigo acreditar nas palavras da nossa presidenta, querendo solucionar um problema estrutural com essa saída. Como uma vez disse Lula: o padrão de vida dos médicos não condiz com o do restante da população brasileira.

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    1. Mas acredite. Somos o bode expiatório do caos da saúde.

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  2. É uma vergonha. Essa maluca precisa ser deposta juntamente com os condenados pelo mensalão. Sou médico no sul do Pará. Não faltam médicos. Falta é investimento em estrutura médica, hospitais e melhores salários a quem cuida e mantém a vida. Políticos deveriam ser obrigados a usar restritamente o SUS para cuidar da sua saúde. Aí teríamos algo bom. Fora Dilma e sua corja.

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  3. Luiz Otávide Souza Oliveira22 de junho de 2013 13:26

    A nossa presidenta está à deriva e a cada pronunciamento ela afunda mais... Estou indignada com tal medida paliativa, mostrando total desconhecimento da real situação da saúde no nosso País. Não estamos deitado eternamente em berço esplêndito e mostrar que também vóz e poder para buscar os nossos direitos, que é de fato nossos como BRASILEIRO

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  4. Luiz Otávio de Souza Oliveira22 de junho de 2013 13:39

    Fui coloteado por 7(sete) prefeitura no Pará, estive em situações de ríscos em vários plantões, devido à falta de medicação, fios de suturas,gestantes sem uma consulta de pré-natal, ambulância(qdo tem) sem combustível!!! É assim que trabalhamos Dona Dilma... Será que é difícil entender

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    1. Vamos denunciar para a nação esta situação!

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  5. Já fui até demitido por dois "prefeitnhos", em momentos diferentes, por reclamar de materiais para trabalho. NENHUM está ligando coisa nenhum para a população que o elegeu. Estão preocupados com as "economias" que poderão fazer ao longo do mandato. Só isso! E o povo que se lixe. Não serão alemães, cubanos, americanos, portugueses ou quem quer que seja que irão melhorar o perfil de saude deste pais. Primeiro há que se ter vergonha na condução honesta de problemas brasileiros...Sem isso, nem pensar em saúde, educação, segurança e o que mais se precisa neste pais,,,

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  6. Você é muito importante porque sofreu na carne a falta de condições de trabalho. Denuncie!

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  7. Absurdo. Absurdo. Essa senhora, que se elegeu presidentE, às custas de seu antecessor (aquele que desgorvernou por 8 anos esse país)ainda não entendeu que o Brasil não precisa de mais médicos, precisa de políticas públicas que incentivem e mantenham o médico no interior (não só com salários dignos, mas com DIGNAS condições de trabalho). Não entendeu que médico graduado por outros países tem que REVALIDAR o diploma no Brasil, assim como ocorre com médicos brasileiros que queiram se aventurar a clinicar no exterior. Não entendeu que enquanto a rainha da Inglaterra utiliza o sistema público de saúde, chega a ser VIOLÊNCIA e VANDALISMO que os políticos do Brasil (que oferecem o SUS à população) utilizem (com dinheiro PÚBLICO, fruto de um dos maiores impostos imputados à população trabalhadora, no mundo) os hospitais privados "de ponta" da "capital" da América do Sul : São Paulo.O Brasil precisa de BOAS unidades de saúde e de um plano de carreira para os médicos, NÃO de mais médicos. Esse governo não entendeu que tem OBRIGAÇÃO de além de SAÚDE, oferecer EDUCAÇÃO, para que a classe menos favorecida tenha condições de frequentar escolas públicas de qualidade (como foi em um passado não tão distante) e competir em igualdade (ou até em melhores condições) com alunos da rede privada, por uma vaga na Universidade; o país precisa de BOAS ESCOLAS, não de cotas. A Sra. Dilma não entendeu que a população (que paga altos impostos,que não foi treinada em Cuba,que não possui armas de fogo,que não assalta bancos, que não sequestra, que não mata, precisa de SEGURANÇA para sair e voltar para casa e até para ficar em casa, pois hoje é dificil encontar alguém que já não tenha sofrido (pelo menos por uma vez) algum tipo de violência; estamos completamente vulneráveis. Muitas outras coisas esse governo ( e o anterior também, já que NUNCA soube o que se passava no país) não sabe, mas vou finalizar com o considero o mais importante ponto de toda essa manifestação que vem tomando conta do país e que responde diretamente pela falta de SAÚDE, EDUCAÇÃO e SEGURANÇA: chama-se CORRUPÇÃO e IMPUNIDADE, ítens no qual o Brasil ganha 10 com louvor. E, apesar de não incentivar a depredação e a violência física (ao contrário dos participantes de movimentos esquerdistas das décadas de 60 e 70) entendo que alguns participantes das passeatas que se alastram pelo país, sentindo-se vilipendiados, desprezados, humilhados e movidos pelo calor da emoção, pratiquem atos dessa natureza. Não concordo, mas não os considero vândalos. Vândalos são os que os fizeram reagir dessa maneira. A "tomada" do "simbolo do poder", em Brasilia, foi um "simbolismo" ímpar. E correu o mundo.

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  8. Estou como médico atuando,no interior do Párá,ha 140 Km da capital,o problema não é a falta de médico,e sim a falta de condições:consultorio quente,lava-se as maõs em bacia com agua,não tem médicamentos,os eplepticos e doentes mental ficam sem medicação controlada.E aí vem remuneração insastifatoria,por isso é que não tem médicos nas regiões afastada da capital.

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  9. Trabalhei em Aveiro,Jacaréacanga e Vitória do Xingu como único médico nesses municípios. Tomei calote em todos. Pior que isso é não ter férias,condições mínimas de trabalho e sentir-se abandonado pelo CRM,que prefere as "luzes da ribBaião,Mocajuba,Maracanãalta" às intempéries dos cantões. O Sindmepa também,como a Dilma,fala toneladas mas não diz um grama.Prefere a velha e boa Belém com seus auditórios refrigerados,cobertura de TV e bons restaurantes. Pra fechar a conta,quando o desgraçado do médico pleitear a aposentadoria,já imprestável para o trabalho e completamente expelido das oportunidades na metrópole,terá o desgosto de constatar que as prefeituras não recolheram as contribuições previdenciárias que lhe descontaram dos salários,sempre pelo teto máximo.Isso ocorreu comigo nas três cidades(!!!)citadas acima e mais:Itaituba,Baião,Mocajuba,Maracanã,Viseu,etc. A Justiça? Ah! A Juiza foi ao "churrasco" na fazenda do Prefeito e levou o Promotor junto. O Sindmepa e o Crm não passam de Anannindeua. Destarte,caríssimo Waldir Cardoso,entregue essas porcarias aos cubanos. Não esqueçam de sindicalizá-los!

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    1. Colega, saia do anonimato e vamos discutir a situação e o que podemos fazer juntos. Não adianta apenas criticar as entidades, temos que colocar a mão na massa. Mande seu e-mail e celular. Vamos conversar e lutar juntos.

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    2. Pois não ,Doutor Waldir. Meu telefone (86)99495276,rome.vi@hotmail.com.
      Ao postar meu comentário tentei identificar-me.Infelizmente sou semi-analfabeto em informática e não consegui. Aqueles que me conhecem sabem que não costumo "fugir do pau".Sempre assumo minhas responsabilidades. Quanto"criticar as entidades" procure inteirar-se de um processo envolvendo a prefeitura de Irituia e a médica Camilla Fernanda.Aquela prefeitura não pagou a "Licença Maternidade" da médica causando-lhe grandes transtornos,a mesma recorreu à assessoria do Sindicato que a atendeu parcialmente,deixando-a na mão.Procure informar-se.Não duvido de seus bons propósitos e reconheço grandes méritos em suas atuações porém eu sou um GRANDE PREJUDICADO e por mais de 30 anos"coloco minhas mãos na massa podre da enganação". Muito obrigado. Romulo Melo Vieira.

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    3. Romulo,

      Me programei para te ligar na segunda a tarde. Estás trabalhando em que estado?

      Tens o contato da Camila. Gostaria de saber o que aconteceu. Abs.

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  10. E meus colegas e os absurdos não param por aí!Está na hora de nos unirmos cada vez mais senão perdemos nossos direitos adquiridos com muito esforço.Sou concursada da Prefeitura de Ananindeua e estou recebendo menos que 50%do valor dos plantões pagos aos colegas q são serviço prestado . Cadê a isonomia salarial?Isso e uma vergonha!Os gestores não estão nem aí eles têm plano de saúde eb a população?

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  11. Colegas, para nos unirmos é importante se identificar e partir para uma reunião bem ampla(com a participação de outros sindicatos e CRM) afim de colocar e discutir todas essas questões que nos angustia e contempla a população com um serviço de péssima qualidade. Concordo com vc que os nossos órgãos de classe tem que se mostra mais, pois sentimos à cada plantão essa ausência(viabilizar contato) e por isso temos que cobrar ações mais efetivas. Somos seres humanos e como tal sujeitos as intempéries da vida( devido ao nosso livre arbítrio que muitas vezes transcende à nossa visão )e por isso à nossa união é mais importante para que busquemos estratégia eficaz contra estes abusos

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  12. Pq os conselhos não convocam a classe para ir às ruas ? vcs só ficam nos gabinetes ! o que adianta , esse blablabla, Vamos pra rua !!!!!!!!também
    Ninguem melhor q nós pra saber dos problemas, convoquem uma reaunião para formarmos umapauta de reinvindicações e vamos impedir a Importação de médicos!! ISSO é Uma vergonha , classe nem uma adimitiria isso.

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    1. Parece que as entidades médicas estão antenadas com você. Vamos fazer uma grande manifestação de rua no dia 03/07. Em Belém, vamos sair da frente da Santa Casa. Concentração às 08h00. Vamos juntos!

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  13. PEC 37 foi rejeitada, mas ela está agindo de maneira silenciosa em algumas instituições(Tribunal de contas), onde as contas das Prefeituras(acertos com superfaturamentos)de bandidos que usam o cargo público, para se beneficiar; desviando e construindo verdadeiros império, são aprovadas. Onde está o Ministério Público que não fiscaliza as declaração de bens e IR, desses indíduos; assim como
    o TC, que tem como conselheiros, parentes e filiados do partidos do prefeito. No estatuto do TC é impedimento legal a presença de pessoas próxima de Prefeitos devido o CONTRADITÓRIO. Vamos acordar Ministério Público, porque estamos vigilantes contra estes abusos, pois estas ações criminosas, refletem de imediato na Saúde, Educação, Segurança Públicas e outros.

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  14. Drluiz Otavio de souza Oliveira10 de julho de 2013 01:11

    O que o governo quer na realidade com o aumento de 2(dois) anos para formatura dos médicos é tornar legal sua contratação por um salário miserável, mas expondo estes profissionais à erros médicos pelas condições precárias que lhe
    são ofertadas

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