segunda-feira, 10 de junho de 2013

Será que há falta de médicos no Brasil?

Sim e não. Talvez. Depende. Se considerarmos os municípios do interior deste país que não conseguem ter médicos para atender seus munícipes a resposta será positiva. Por outro lado o Conselho Federal de Medicina registra 373.487 médicos ativos no país, cerca de 1,9 médicos para cada 1.000 habitantes. Praticamente o dobro do preconizado pela Organização Mundial de Saúde. Alguns países desenvolvidos e subdesenvolvidos têm percentuais de médicos maiores que Brasil. E no Brasil, a maioria das capitais tem percentuais bem mais altos que a média do país e tem dificuldade de ter médicos nas suas periferias.

O incontestável é que os médicos estão concentrados nos grandes centros e que o número de médicos necessários para atender determinada população depende não do número de profissionais, mas do modelo de atenção à saúde adotado. Modelos centrado no atendimento hospitalar e especializado precisam de mais médicos que sistemas que enfatizam a atenção primária.

Para além dos números e teorias, há o fato concreto da escassez de médicos em muitos municípios brasileiros, particularmente, na Amazônia e interior do Nordeste. O país convive com muitos e inaceitáveis vazios assistenciais. Uma das causas é o fato de que 70% dos municípios brasileiros terem menos de 20.000 habitantes e renda incompatível para contratar médicos pelos valores de mercado. A este diagnóstico, partilhado por todos, o governo Dilma propõe, ou implementa, terapêuticas equivocadas e ineficazes: abertura indiscriminada de escolas médicas; aumento de vagas em cursos de medicina existentes; Serviço Civil Obrigatório; Programa de (des)Valorização da Atenção Básica (PROVAB); Importação de médicos estrangeiros sem revalidação de diplomas.

Todas as propostas são paliativas. Mal comparando, seria como tratar com analgésico e antitérmico um paciente com grave pneumonia. As medidas não preparam os médicos para as especificidades do atendimento, não garantem que o profissional fique na comunidade tempo suficiente para conhecer as características epidemiológicas do território e estabeleça com a população laços de afetividade e confiança. Serão temporários e/ou estranhos à nossa cultura. A atenção primária precisa de profissionais com perfil adequado para um trabalho de altíssima complexidade. Profissionais médicos vocacionados para não só tratar as doenças, mas interagir e trabalhar em equipe pela sanidade da população e do território.

A proposta das entidades médicas é a criação de carreira federal ou estadual de base municipal. A carreira garante seleção adequada, vínculo estável, curso preparatório, mobilidade e perspectiva de futuro para o profissional médico. Há que ter remuneração adequada. A semelhança dos integrantes das forças armadas, juízes e promotores. Recrutamento federal ou estadual e cessão para os municípios, que farão a gestão desta força de trabalho do ponto de vista administrativo. Gestão da carreira partilhada pelos governos com o acompanhamento das entidades médicas. Esta é uma proposta estruturante. Que valoriza a atenção primária e traz perspectiva de acesso à assistência médica a todos os brasileiros e qualidade na atenção à saúde em todo o território nacional.

Um comentário:

  1. Caro Waldir, trabalhei por algum tempo no interior e sei da dificuldade que tive, para citar algumas: trabalhar no interior é ficar de sobreaviso "full time", atender pediatria, GO, cirurgia,anestesia, clinica geral, TUDO. Como pode isso? é humanamente impossivel fazer medicina nessas condições ou seja, não se faz medicina, nada. Por isso nem por R$100mil dá para enfrentar esse estresse. Pode ser brasileiro ou cubano, não vai dar certo enquanto o Governo não fazer sua obrigação de dar condições de trabalho digno. Se dá para trabalhadores da Petrobrás, por ex., por que não dá para os médicos. Em vez de ficarmos indignados pela importação de médicos estrangeiros, deveriamos lutar por melhorias na condição de trabalho, depois disso, duvido que médicos brasileiros não fossem para o interior... Se houver condições de trabalho não vai faltar médico para o interior, se não, nem cubano dará jeito, duvido!

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